As eleições têm como premissa fundamental a ideia de que os eleitores tomam decisões bem informadas e que avaliem seriamente suas opções de candidatos. As novas tecnologias, como as deepfakes, desafiam este fundamento, já que vídeos produzidos por esta técnica podem enganar até os eleitores mais bem informados.

Na semana passada escrevi aqui sobre o que era deepfake, esse novo fantasma que deverá tirar nossas noites de sono no futuro, e na mesma semana a Folha de São Paulo publicou uma entrevista muito bacana com Sam Gregory, diretor da Witness, sobre o assunto.

A Witness é uma organização que ajuda pessoas ao redor do mundo a usar vídeos como forma de luta pelos direitos humanos e o Sam Gregory esteve aqui para o seminário Desinformação: Antídotos e Tendências, promovido pela Associação Nacional dos Jornais, a ANJ. 

Educação e plataformas

Na entrevista, ele falou sobre a ameaça que as deepfakes representam para o cenário jornalístico no mundo, sobre o “fim da verdade” que seria provocado por elas, sobre eleições e, principalmente, sobre como se preparar para elas. O que não parece vai ser fácil.

Gregory defende que o preparo para as deepfakes reside principalmente na educação midiática do público consumidor de conteúdos na internet e na responsabilidade de plataformas como WhatsApp, Youtube e Facebook de desenvolver mecanismos capazes de identificar deepfakes mal-intencionadas – lembre-se, existem conteúdos do tipo que podem ser de mero entretenimento, como mostramos no post anterior, então nem todo deepfake é ruim!

Para ele, no caso das plataformas será um “jogo de gato e rato, mas elas devem criar detectores e disponibilizá-los de forma mais sofisticada aos jornalistas, para que eles possam detectar e, o mais importante, explicar o que detectam ao público“.

Sobre nós, meros mortais, Gregory pesa menos a mão:

“Não devemos pressionar demais os consumidores de notícias. Eu acho que a educação midiática é fundamental para permitir que as pessoas façam melhores julgamentos com base na fonte, na credibilidade e na trajetória, e não apenas nos pixels de um vídeo.

Isso porque as pesquisas já mostraram que as pessoas não conseguem identificar facilmente a manipulação sutil baseada em inteligência artificial, como as deepfakes de sincronização labial. Portanto, em vez de pedir às pessoas que identifiquem as deepfakes por conta própria, precisamos exigir que as plataformas forneçam melhores sinais ao público sobre a manipulação, fornecendo sinais técnicos que possam complementar a educação de mídia. 

Ou seja, as plataformas devem fornecer mais e melhores ferramentas para produtores de conteúdo e checadores de informação e nossa base curricular, desde o ensino fundamental, deve ensinar nossas crianças, a partir de agora, a ter uma relação mais próxima e mais crítica sobre o que é lido na internet, uma educação que favoreça a participação cidadã e as pesquisas histórica, documental e científica.

O exemplo da Finlândia

A Finlândia, por exemplo, já faz um trabalho nesse sentido, quando incluiu no currículo escolar aulas sobre como identificar notícias falsas na internet. Resultado? O país é considerado pelo Media Literacy Index, do Open Society Institute, como o mais resistente a fake news no mundo, seguido da Holanda, Suécia e Estônia – temos um texto sobre eleições na Estônia por aqui, lê lá!

Em resumo, não vai ser um trabalho fácil, precisamos pensar nas soluções a partir de já, mas tem jeito e é possível dirimir as ameaças das deepfakes, ou até mesmo eliminá-las.

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